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CAIPORA | A ÚLTIMA ICAMIABA
Elas eram lendas do combate.
Eram disciplina.
Eram ordem e a justiça
Nas matas que os invasores só enxergavam riquezas.
Durante séculos, em um recanto profundo e sagrado da mata, existiu uma tribo composta apenas por mulheres guerreiras. Guardiãs. Treinadas desde o nascimento para proteger o coração da floresta. Não eram selvagens — eram estruturadas, implacáveis, estrategistas. Elas viviam sob a benção da Lua, a quem chamavam de Jaci, deusa da noite e da intuição. Era em nome dela que guerreavam, meditavam, e criavam seus artefatos sagrados — os Muiraquitã, talismãs vivos de proteção.
Ninguém podia pisar em sua aldeia sem ser repelido — exceto um único povo:
Os Guacaris, os filhos do Sol, de Guaraci, que mantinham com elas um vínculo ancestral.
Não eram aliados políticos, nem conquistadores: eram aceitos.
Com eles, as guerreiras compartilhavam seus rituais de união, levando pra frente a linhagem das novas guerreiras Icamiaba e guerreiros Guacari. O sangue era sagrado — e o território, inviolável.
Foi desse ventre de silêncio e força que nasceu Caipora — uma criança albina, diferente de todas as outras.
Diziam que era uma enviada da própria Jaci, a Deusa da Lua. Desde pequena, ouvia os sussurros da mata.
E por isso foi treinada para se tornar xamã, a líder espiritual da tribo que guiaria seu povo à paz e prosperidade inimagináveis.
Mas o destino não esperou isso acontecer.
As lâminas e a pólvora de invasores covardes arrasaram tudo, como uma doença.
As guerreiras, como esperado, não se renderam — mas o número, a crueldade e a surpresa não permitiram outra saída.
Foram massacradas.
Quando tudo se silenciou, os últimos suspiros eram de Caipora.
No chão, coberta pelo sangue de suas irmãs.
E depois de anos só escutando aquelas vozes, ela decidiu falar.
Sussurrou aos espíritos clamando por ajuda, por justiça.
E a floresta respondeu.
Ofereceu uma proposta: a proteção eterna daquele santuário sagrado, o poder para impedir que isso acontecesse novamente, mas com um dever eterno a ser cumprido.
Ela aceitou.
O sangue das Icamiabas tingiu seus cabelos, o peso da extinção moldou seu corpo.
Caipora renasceu como uma nova força da natureza, uma proteção imortal.
Uma predadora implacável.
Agora, ninguém viola aquelas matas impune.
Ela caça caçadores. Silencia invasores. Protege a mata com uma violência ancestral.
Até que um dia, ela viu algo familiar…

by GR1M0


