
DBD | FANMADE CHAPTERS
YAGO | HERDEIRO DOS GUACARIS
Meu avô sempre dizia: “É importante saber reconhecer e respeitar o dono da casa quando ela não é sua.”
Isso nunca fez tanto sentido quanto agora.
Na fronteira norte do país, tem um pedaço de mata que todo mundo evita. Dizem que quem entra, não volta. E os poucos que voltam... não entram lá de novo por nada. Os traficantes insistem, porque é o berço dos animais mais exóticos da terra: filhotes de jaguar, arara-azul, e qualquer outro bicho raro que pague bem. Mas nenhum desses vagabundos voltam de lá. Às vezes, nem corpo a gente acha.
Cresci ouvindo histórias de matas sagradas. Das guerreiras Icamiabas, filhas da Lua, que não abaixavam a cabeça pra ninguém. Da sua tribo aliada, os Guacaris, filhos do Sol. Uma história muito bonita de 2 povos antigos, que foram extintos ou colonizados, coisa do passado. Meu pai dizia que os homens da família são descendentes dos Guacaris. E que a gente carrega algum tipo de fardo... uma dívida. Ele me deu um Muiraquitã no dia que eu entrei pra patrulha ambiental. Disse que era mais do que um amuleto. Era memória, proteção.
Sinceramente? Eu sempre fui cético, achava que isso tudo era lenda pra criança não entrar no mato sozinha. E esses desaparecimentos, só incompetência de quem invade aquele lugar sem saber o que tá fazendo, não é qualquer um que sobrevive na selva. Achava que era tudo superstição, até aquela noite…
Fui chamado pra substituir um colega da cidade vizinha de última hora. Eu mal conhecia os caras, mas a parada não era muito diferente do habitual, mais um chamado anônimo sobre tráfico de animais. Normalmente quando a gente chega só resta o corpo. Mais um pra documentar, mas dessa vez foi diferente. No caminho percebi que o clima tava pesado, os caras nem olhavam na minha cara, ficou claro que não me queriam ali.
Quando chegamos tudo fez sentido, eles tavam aproveitando a missão pra receber o arrego dos traficantes, fazer vista grossa. Pra mim policial que colabora com vagabundo é pior que bandido, alguma hora o clima ia esquentar, mas eles não me conheciam então fiquei na minha. Eram quatro contra um, e eu não sou idiota, precisei esperar uma oportunidade, ganhar tempo.
Enquanto contava o dinheiro o policial que foi dirigindo decidiu jogar as cartas na mesa:
"Eaí Mike? Tá com a gente?"
Só de olhar pra cara dele me perguntando aquilo meu sangue ferveu, eu não ia entrar nessa, e se era pra morrer ali eu ia levar pelo menos um comigo. Mas antes que eu pudesse responder... a floresta se calou...
Sem pássaros. Sem vento. Sem grilos. Um silêncio ensurdecedor.
Até o som do meu próprio coração parecia mais alto. Até que um assobio estranho começou a se aproximar, vinha de todas as direções...
Só parou quando uma flecha cortou o ar com o som seco, direto na cabeça de um dos traficantes.
Rápido. Limpo. Mortal. Um dos policiais tentou correr. Mas um vulto pulou de cima das árvores direto na garganta dele. O traficante que ainda tava vivo tentou atirar, no desespero ele errou tudo e teve a garganta cortada.
Antes que eu pudesse ver a última execução, corri pra longe, pra trás das árvores. Seja quem for, com certeza não me enxergava diferente dos outros. Quando os gritos do último policial pararam, fiquei quieto. Fechei os olhos e rezei para meus ancestrais me buscarem, aquele era meu fim. Mas nada aconteceu... de novo apenas silêncio.
Quando me senti seguro para abrir os olhos, eu a vi. Ou melhor, ela me via...
Silenciosa, estática.
Um olhar fixo que parecia enxergar minha alma.
Seus cabelos vermelho sangue "levitavam" como se ela estivesse debaixo d'agua, como um espírito.
Seu corpo era meio mulher meio jaguar.
Quando ela começou se aproximar, a floresta se curvava diante dela. Meu amuleto começou a brilhar e emitir um zumbido, esquentou tanto que senti por cima da farda, o que tirou minha atenção por um segundo, e quando olhei de novo... ela tinha sumido, como se seus movimentos não fizessem barulho.
Desde aquele dia, eu escuto a floresta diferente. Vejo símbolos riscados nas árvores, sinto que ela me tá me observando a todo momento. Eu sei que não fui poupado... eu fui marcado.

by GR1M0


